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goa-portuguese · People from the Indian State of Goa
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Re: avivando dialogo s/ INCULTURACAO / ACULTURACAO NA IGREJA CATOLIC   Message List  
Reply | Forward Message #1010 of 1380 |
Presada sra. Maria Silva.
O que o sr. AntonioMachado nos diz, é realmente interesssante, Sao estes os pontos que temos a considerar ao "dialogarmos" sobre o INculturacao/ aculturação.
Cordiais cumprimentos a todos
 
Fernando do Rego.


maria silva <identitate2004@...>
wrote:
Lá vai o primeiro comentário que eu recebi, de António Machado, Portugal.Muito bom o àparte dele.  Passo a palavra a ele. E aguardo a vossa :
 
Perdoem-me a intromissão, mas o tema é tentador.
Começo por avisar que nada sei da realidade do subcontinente indiano, em geral, ou de Goa, em particular. E que pouco leio sobre o período (sec. XVI) em que a influência portuguesa começou a fazer-se sentir aí e nas terras do Brasil. Então porque escrevo eu, perguntarão. Porque vejo nos argumentos a que ambos os lados, com grande elevação, recorrem vestígios de "pensamentos feitos" que, afinal, não têm o apoio histórico que se diz possuirem. Vou organizar estas notas segundo o método agostiniano.
A) Da Cidade de Deus
S. Paulo, ao transformar uma doutrina originalmente dirigida ao judeus numa doutrina para os gentios (romanizados politicamente e helenizados culturalmente), creio que foi o verdadeiro fundador do cristianismo. Os Padres da Igreja que se lhe seguiram mais não fizeram que acentuar esta vertente "gentílica" (isto é, helénico-romana)  à qual, na maioria, pertenciam. Ao ser adoptado como religião oficial do Império Romano, o cristianismo veio a absorver as características públicas das práticas religiosas que estava a substituir e, paradoxalmente, readquiria a natureza institucional e ritualista da religião judaica que Cristo tanto havia combatido.  O preceito bíblico "ama Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo" - também ele a base da pregação (essénica?) de Jesus - voltou a ser conjugado "à judaica": o culto, a religo com O Completamente Outro (amar Deus), na esfera pública (alicerçando-o sobre uma organização cada vez mais forte e complexa); a relação indivíduo a indivíduo, a religo com o Outro  (amar o próximo) empurrada para o foro privado ou, mais prosaicamente, esquecida. As vertentes não greco-romanas do cristianismo (que as houve, muitas), logicamente, foram marginalizadas, repudiadas, perseguidas e excluídas do convívio imperial - com especial sanha aquelas que conjugavam o referido preceito de forma diferente.
O que surpreende, porém, é que, com o passar dos séculos, esta "especialização de funções" permaneça intocada e indíscutida, quando é ela que tem conduzido a algumas das maiores preversões do cristianismo. De início, nos sec.s XV e XVI, as correntes protestantes, tal como muitos outros movimentos sociais desde o sec. X (as jacqueries, os cátaros, a cruzada de Pedro o Eremita), ou ainda no sec. IV (as bagaúndias ibéricas), quiseram alterar os termos desta equação. Contudo, uns nada tinham para oferecer em troca; outros eram demasiado localizados e tornaram-se de tal modo ameaçadores que foram violentamente reprimidos, extinguindo-se afogados em sangue; outros ainda hoje persistem, mas quedaram-se a meio caminho, no afã de institucionalizarem ambas as Civitas.
Como qualquer outra religião, o cristianismo, sobretudo nos primeiros tempos, foi aglutinando princípios religiosos e filosóficos (de natureza mais abstracta e geral) com os traços culturais que davam forma às  sociedades onde se ia estabelecendo - daí aparecer como "exportador", primeiro, da cultura helénico-romana e, mais tarde, da cultura europeia (uma simbiose entre a cultura helénico-romana e as tradições sociais germânicas) do sec. XII em diante. O mesmo se passou com o Islão, onde muitas das características que hoje se lhe atribuem não constam, nem das suras, nem da sunna, antes são manifestações de práticas culturais que lhe preexistiam, mas que convivem bem com a separação absoluta entre as esferas pública e privada. Uma tal separação, aliás, prova como os mussulmanos acolheram entusiasticamente, meditaram e difundiram os ensinamentos aristotélicos - e, por aí, grande parte da herança helénico-romana. Creio mesmo que uma parte da actual radicalização das sociedades islâmicas pode ser imputada mais a tradições culturais pré-islâmicas que propriamente aos ensinamentos do Profeta e aos princípios do Corão.
Se o judaísmo não pode exibir pergaminhos semelhantes é porque nunca lhe foi oferecida a oportunidade de se converter na religião oficial de um Estado suficiente forte e duradoiro, estruturado em torno de uma cultura dinâmica. É certo que a religião judaica, entre os sec. V e VII, estava em expansão ao longo do Norte de África, em largas manchas da península arábica e, talvez,  mais para oriente (no Crescente Fértil), mais para Norte (Anatólia) e mais para Sul (na margem ocidental do Mar Vermelho). Hoje sabe-se que o Yemen tem esta designação porque, por esses tempos, conheceu vários reinos judaizantes que se reclamavam da tribo perdida de Benjamim (ibn Yamin); que o Profeta Mohammed conviveu de perto com sociedades judaizantes que dominavam várias cidades-Estados arábicas, e contra elas se afirmou; que, pouco depois da morte de S. Agostinho, a margem sul do Mediterrâneo não era mais cristã mas judaizante, e foi à maneira judaica, com mulheres à frente dos exércitos, que a Ifríquia (hoje, Tunísia e partes da Argélia e da Líbia) se opôs à expansão árabe; que era judaizante a grande maioría da população berbére, de onde saiu Tarik. Só que os judeus, desde esses tempos recuados, não mais possuiram um território que lhes permitisse afirmar, com sucesso, uma soberania inspirada na Torah. Faltou-lhes o poder que os tornaria prosélitos capazes de espalhar, e de impor, a sua própria visão da Cidade de Deus e da Cidade dos Homens.  O cristianismo e o islamismo tiveram esse poder e, por isso, conseguiram "aculturar" outros povos.
O facto de a Igreja Romana exibir permanentemente manifestações próprias das culturas dominantes que hajam adoptado o cristianismo não é  um simples "acidente de percurso"; é uma "fatalidade histórica" a que a institucionalização da Civitas Dei não deixa alternativa. Podemos suspeitar que tudo teria sido diferente se os exegêtas tivessem escolhido para tema das suas reflexões a Cidade dos Homens - o que é dizer, a construção de um edifício de poder inspirado no preceito "amar o próximo", e que deixasse para o recato da privacidade individual a religo ao Além. Mas deveremos interrogar-nos, no momento seguinte, se, a essa luz, o cristianismo teria servido os propósitos do Imperador Diocleciano. Uma coisa parece certa: sem a oficialização imperial a expansão do cristianismo teria sido mais lenta, e talvez estivessemos hoje todos a discorrer sobre os malefícios do mitranismo, do zoroastrismo, do culto de Heliogábalo ou do culto dos mistérios gregos.  
B) Da Cidade dos Homens
A questão da escravatura é, sem dúvida, uma das mais permeadas por ideologias, ao sabor das conveniências.
A realidade histórica, porém, não fundamenta as conclusões culpabilizantes que por aí circulam.
A escravatura é antiga e todos os povos até ao sec. XIX a praticaram sem grande rebuço. De facto, houve que esperar pela Revolução Industrial e pelo domínio de novas fontes de energia, mais poderosas e mais "domesticáveis", para que uma Potência europeia (sim! europeia) jogasse o seu peso militar e político a favor das teses abolicionistas. Dir-se-á, bem, que lhe convinha - mas tal não deve obscurecer o mérito que lhe pertence.
Durante séculos (entre o sec. X e o sec. XV) os reinos da Europa equilibravam as suas Balanças de Pagamentos com o Oriente próspero, exportando escravos nascidos, criados e apresados, principalmente, nos territórios europeus do Norte e do Leste, mas não só. O Andaluz - sobretudo ao tempo do Califado e, mais tarde, durante o período dos reinos-taifas - recebeu diversas levas de escravos provenientes do que hoje é a Roménia, a Bulgária e a Húngria, gente que por cá ficou com papéis históricos, por vezes, importantes. Tarik, um berbére, era escravo. Alguns dos grandes cabos de guerra do Andaluz nasceram escravos, viveram escravos, praticaram grandes feitos militares como escravos e morreram escravos. Às prósperas cidades mussulmanas do Mediterrâneo Oriental afluiam continuamente caravanas de escravos capturados em África e no Oriente Próximo - certamente, não por europeus, mas por mussulmanos e povos autóctones que disso faziam modo de vida. Da África Negra, mas agora pelo Ocidente, várias rotas eram alimentadas por ouro e (sim, sim) escravos. A primeira transacção do escravo, na África Negra, desenrolava-se, por regra, entre um africano ou um árabe, que vendiam, e um europeu, que comprava. Porquê europeu? porque o comércio nas possessões americanas (a Norte e a Sul) era privilégio das respectivas Potências colonizadoras. Não custa admitir que, se as teses de Grotius se aplicassem universalmente, e se os potentados islâmicos dominassem a navegação atlântica, os galeões europeus que se dedicavam ao transporte de escravos teriam defrontado grande concorrência. Mais recentemente, já depois de ter abolido a escravatura nas suas possessões, o reino de Portugal foi enxovalhado pela França, apenas, porque apresou um navio francês que persistia em traficar escravos na costa oriental de África. Portugal opôs-se, reprimiu, tentou impor a lei que bania a escravatura na esfera de influência europeia (sim, europeia - porque noutras latitudes a escravatura ainda hoje é tolerada). A França (sim, a França) apareceu a defender o direito de traficar.
Não me canso de repetir que é feio julgar o passado à luz das ideias presentes. E quem quiser obter uma visão exacta, não hollywoodesca, do que terá sido o animus do escravizador e da vida do escravo, talvez a leitura da história de Cabo Verde seja um bom princípio.
Por último, o sistema de castas nas sociedades hindús. Não sei porquê, mas só me vem à ideia a figura da Madre Teresa de Calcutá. Uma europeia. Nascida no país mais atrasado e ignorado da Europa (a Albânia). Cuja população é maioritariamente mussulmana, por ter pertencido ao Império Otomano desde o sec. XIV até ao final da I Guerra Mundial. Miopias de um português?  
A M        


FERNANDO DO REGO <fernandodorego@...> wrote:
 

Monday, March 07, 2005  17:05:48

 

Caro Dino,

Foi grande prazer para mim, que, graças à nossa amizade  de  quase meio século, tivesses concordado comigo a dar a tua opinião sobre este ponto de inculturação e/ ou  aculturação, em especial tu estando agora estabelecido em São Paulo- Brasil, um dos paizes onde  estes problemas tem  sido debatidos com intensidade.

O tua carta que li com muito interesse, mostra-me que, apesar dos teus trabalhos professionais de advogado, tens-te dedicado muito à leitura de assuntos relacionados com este tópico.

Como me autorizas a enviar o anexo aos meus próprios amigos e parentes, vou fazê-lo pois o tema é de grande importancia para a Igreja neste século

.Naturalmente, vou mandar só  aos meus recipientes que falam o portugues, em especial no Brasil onde tu vives.

Um abraço

Fernando

 

Caros amigos,

Custodio Ubaldino Miranda é filho do Eng.Agr. José Miranda,de Loutolim

Feito o seu curso de Direito,em Lisboa, trabalhou em Goa por alguns anos,em vários cargos judiciais.Finalmente, estabeleceu-se em São Paulo onde tem a sua própria Firma de advogados.

Como devem estar lembrados,este diálogo sobre a inculturação / aculturação foi começado por mim quando vos relatei um” Facto UNIQUE na Arquidiocese de Goa”,: tendo-se realizado na Igreja de Chicalim,  a cerimónia do Crisma, nela participou como recipiente um cidadão portugues de origem goesa, o Sr, Constantino Xavier, que foi vestido de “kurtá- pijama” como fora  sugerido pelo Pároco/Prior dessa Freguesia. 

Eu vos convido a participar neste renovado diálogo, graças à carta que o “Dino” me escreveu e  que vai pelo “anexo”.

NOTA : a  carta é bem longa de  seis páginas. Faço esta prevenção porque muitos recipientes não gostam de receber “anexos” longos.Portanto, podem delitar esta carta sem a ler. 

Convido a dois sacerdotes para dar a sua opinião, uma vez mais: 

1.Pe. Vasco do Rego s.j., da Provincia de Goa

2.Pe.Antonio Colimão ,originário de Damão, hoje Reitor da Igreja de São Francisco Xavier em Lisboa, e que pertenceu à Sociedade de São Francisco Xavier ( S.F.X.), fundada em Goa  – ordem esta que tem sido uma das pioneiras na inculturação. 

Peço a todos os meus amigos que desejem participar que o façam pelo REPLY ALL.

A todos agradeço a vossa colaboração, mesmo que não venham a concordar com quaisquer das ideas expresssas pelos participantes.

Cordiais cumprimentos de 

Fernando do Rego.



Fernando do Rego.
143-Fontainhas.Pangim 403.001.
GOA. INDIA TEL:222.6353.

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143-Fontainhas.Pangim 403.001.
GOA. INDIA TEL:222.6353.

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Wed Mar 9, 2005 6:32 am

fernandodorego@...
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FERNANDO DO REGO
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Mar 9, 2005
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