Caros Amigos
Este dialago está a tornar-se cada vez mais interessante.A carta que segue foi por mim recebida do Dr.Sergio Mascarenhas,directamente, e autorisa-me a disseminá-la o que faço com prazer.
Agora tem a palavra o dr. Custodio "Dino" Miranda.!!
Sao 19.35 e assim desejo uma boa noite a todos
Fernando do Rego.
Caro amigo,
Obrigado por me ter enviado o texto do Dr. Miranda. Dado esta me mencionar especificamente, merece-me um conjunto de comentários que seguem adiante. Eu enviarei esta resposta directamente para o Dr. Miranda ficando ao seu critério disseminá-la pelos destinatários da sua lista de discussão.
Um abraço,
Sérgio Mascarenhas
O Dr. Miranda esclarece de forma concludente a questão da aculturação/inculturação fazendo o que, de tão óbvio, nós não fizemos: ir ao dicionário.
Refere também de forma muito interessante o carácter de subrevivência cultural do sistema de castas em Goa no processo de aculturação aqui ocorrido. Devo dizer que tendo a pensar (de forma intuitiva pois não fiz qualquer estudo aprofundado nesse sentido) que o actual sistema de castas católicas é diferente do que prevalece entre a população hindu por corresponder a uma fusão de elementos deste com o sistema nobiliárquico português. Ainda um processo de aculturação...
Agora, quanto aos pontos em que o Dr. Miranda comenta o que eu escrevi:
Refere ele que o processo de colonização "é uma mancha negra na história da humanidade, na medida em que cultivou a escravatura, a pilhagem, o genocídio, a perversão dos costumes das culturas locais e por aí fora" mas com uma "única 'virtude' do colonialismo: ter levado às populações autóctones, alguma coisa de bom da civilização ocidental: o progresso material, intelectual e de costumes, com a eliminação de atos de barbárie por elas praticados". Vemos que o Dr. Miranda, como muita gente aliás, olha para a expansão europeia a preto. Depois vê branco. Mas acaba concluindo que tudo é preto. Pessoalmente fico-me pelo cinzento: A expansão teve aspectos positivos e negativos. Ela não foi idêntica em todo o lado pelo que zonas houve onde predominaram os aspectos positivos e zonas onde os negativos levaram a melhor.
É útil adoptarmos uma tal posição para deixarmos de olhar para a história à sombra do dedo acusador de juízos categóricos do tipo 'colonialismo = mancha negra'. E deixarmos de projectar esses juízos no presente em termos de equacionar os descendentes dos colonizadores com os crimes do passado e os descendentes dos colonizados com a vitimação pretérita. Digo isto porque não aceito ser objecto de processos - como é comum acontecer - por actos que não cometi, não aceito ser tratado como um criminoso porque os meus antepassados supostamente foram criminosos (supostamente, insisto, porque como referi antes não é claro que a expansão europeia tenha sido no global tão má como a pintam).
Voltemos, no entanto caro amigo, ao ponto central da discordância manifestada pelo Dr. Miranda para com aquilo que eu escrevi. Ela decorre de o nosso interlocutor afirmar, preto no branco, que "A religião cristã nada tem a ver com o processo de colonização". Isto porque, "O colonialismo é obra da civitas terrena, o cristianismo da civitas Dei: portanto uma nada tem a ver com a outra e ponto final".
Porém, já vimos que para o Dr. Miranda o colonialismo é um produto europeu, ocidental. Ora, a "A religião
cristã tem a ver, sim, com a civilização ocidental". No entanto, "A identificação da igreja católica com a civilização ocidental é assim um mero 'acidente de percurso' do cristianismo", daí que "uma coisa é os países do Ocidente terem adotado a religião cristã e daí ter nascido, como fruto, e é assim que eu penso, a civilização ocidental e outra, dizer-se que ela se identifica, de algum modo, com o colonialismo: uma coisa nada tem a ver com a outra". Confesso que há aqui uma grande confusão e me é difícil perceber como é que o Dr. Miranda consegue conciliar afirmações tão categóricas. Talvez valha a pena distinguir algumas nuances que afloram no seu
pensamento.
O Dr. Miranda implicitamente distingue:
O cristianismo que remete para a Civitas Dei, obra de Deus.
A religião cristã que, tendo a ver com a civilização ocidental que a adoptou, não se reduz a esta (neste contexto se entendendo a diferenciação entre a recepção da religião cristã via ocidente - estranhamente equacionados com os ingleses - relativamente à anterior chegada daquela religião imputada a S.
Tomé). A religião cristã parece ser, assim, obra humana mas obra que transcende particularismos culturais.
Finalmente, temos a igreja. Ora a igreja em questão é a igreja católica, apostólica e romana. Não o diz o Dr. Miranda mas digo eu, esta igreja está na sua história intrinsecamente ligada à civilização ocidental, europeia (isto sem prejuízo de nas últimas décadas ter procurado uma
postura mais ecuménica, verdadeiramente católica; sinais dos tempos). Desta igreja nos diz o Dr. Miranda que "deve se preocupar não só com a vida espiritual do ser humano, mas também com a sua vida temporal" e que está sujeita ao princípio de que "Toda a árvore dá, na sua grande maioria, frutos bons, e, por vezes, frutos podres".
Esta diferenciação de cristianismo, religião cristã e igreja é altamente discutível, deve dizer-se em abono da verdade. Mas essa é discussão que não é necessário encetar no presente contexto, aceitemo-la pois (assim como não discuto aqui a diferença, igualmente importante, entre expansão e colonização europeia, e colonialismo). É, no entanto, necessário coordenar de alguma forma os três conceitos. Do meu ponto de vista, só há uma forma possível de o fazer (mais uma vez, o que se segue não é proposto pelo Dr. Miranda mas penso que decorre da lógica da sua argumentação):
Para se chegar à Civitas Dei, para se ser cristão no sentido pleno do termo, é necessário praticar a religião cristã. Para se praticar a religião cristã é necessário que o crente se integre numa igreja. Uma dessas igrejas é a igreja católica, apostólica e romana.
A questão que se levanta é, pois, esta: Quando se discute a implicação do fenómeno religioso na processo colonial, estamos a falar de quê (à luz dos conceitos utilizados mas não definidos pelo Dr. Miranda), estamos a situar-nos a que nível? No plano do cristianismo, da religião cristã ou da igreja?
O Dr. Miranda exclui categoricamente que o cristianismo ou a religião cristã estejam implicados no processo colonial. Mas, e a igreja? Poderá ser tão categorico quanto a esta? Ou será antes que esta participou no processo colonial, tirando partido deste para, precisamente, poder chegar a mais seres humanos? E ao fazê-lo, tendo em vista a sua preocupação com a vida espiritual, interferiu necessariamente com a vida temporal? E não será que, neste processo, a igreja contribuiu para a "mancha negra" do colonialismo? Não será este um dos "frutos podres" da grande árvore católica?
A resposta só pode ser uma, os factos históricos demonstram-no: A igreja católica apostólica e romana (e também as igrejas protestantes em contextos diferentes - para não falar de outras) participou activamente no processo colonial, não apenas por arrasto, mas como um dos seus mais importantes motores. É indubitável que os processos de aculturação e interferência cultural que ocorreram ao longo dos últimos cinco séculos, com o seu rol de desgraças, foram em grande medida impulsionados pela igreja.
Mas porque se deu a igreja ao trabalho de participar em tal empresa? Porque entendeu que era essa a sua missão. Porque entendeu que tinha que contribuir para uma mudança radical da vida espiritual de todos aqueles que ainda não participavam na religião cristã. Entendeu ainda que isso poderia exigir uma não menos radical mudança na sua vida temporal. Não sou eu que o digo. Dizem-no os padres e religiosos do passado.
A conclusão inelutável é a de que há uma implicação essencial entre expansão e colonização europeia, igrejas cristãs europeias e propagação da / participação na religião cristã. Mesmo na Índia ou em Goa. Daí que é insustentável dizer-se que "é uma aberração dizer que ser cristão na India (ou em Goa?) é aceitar uma importação colonial essencial", pelo menos para aqueles cristãos que receberam a sua religião por via colonial (logo, não se incluindo aqui os cristãos de S. Tomé).
O facto que não pode ser ignorado de forma alguma é este: Sem processo colonial não haveriam os milhões de cristãos que existem por esse mundo fora na América, na África, na Ásia e na Oceânia.
Há, aliás, uma contraprova que é muito fácil de fazer: Pergunte-se aos descendentes daqueles que, sugeitos ao processo colonial, escaparam à conversão. Pergunte-se aos hindus de Goa, por exempo; aos budistas do Ceilão; aos cristãos de S. Tomé do sul da Índia que se oposeram à sua catolização no século XVII. Pergunte-se-lhes se, eles também, concordam que não há nada que ligue cristianismo, religião cristã, igrejas cristãs ao processo colonial. Eu sei a resposta mas deixo ao critério do meu amigo obtê-la para
si.
Mas o processo de aculturação decorrente da expansão europeia não se restringiu apenas à religião, antes tocou nos patrimónios culturais a ela sujeitos como um todo. Hoje, no termo do processo, torna-se por isso importante discutir o produto do mesmo. Perdeu-se ou ganhou-se? À luz de que critérios é que se pode avaliar o que se perdeu ou ganhou? É neste contexto que é fundamental discutir a questão da autenticidade cultural.
Diz-nos o Dr. Miranda que "há culturas autênticas, sim, e que pouca ou nenhuma influência tiveram, de elementos exógenos". Bem, há aqui uma confusão entre autenticidade e isolamento.
Há, de facto, culturas que se desenvolvem num estado de isolamento. As culturas americanas pré-colombianas, por exemplo. Mas isso não quer dizer que elas não tenham sofrido influências e cruzamentos culturais. Desde logo pelo facto de que, no passado distante, os povos da América vieram da Ásia. Se olharmos para aquelas culturas onde
situamos a génese da sua autênticidade?
Punhamos as coisas nos seguintes termos: As culturas americanas de hoje, produto de processos de aculturação e combinação cultural, abertas a influências muito diversas vindas de pontos muito distantes, não são autênticas? Quem se atreve a defender tal ideia?
Do meu ponto de vista todas as culturas são autênticas. O que as faz autênticas é o facto de terem algo a dizer que lhes é único, algo que não se encontra em nenhuma outra cultura. Por isso todas são valiosas. Independentemente de terem por trás uma história documentada de intercâmbios culturais ou de, por a não terem devido a longos períodos
de isolamento, projectarem a ideia de que cresceram sem quaisquer influências externas.
Há ainda que reparar em que o Dr. Miranda analisa alguns fenómenos históricos de forma parcial. Tomemos o que ele nos diz ao referir que "Enquanto os jesuítas portugueses procuravam cristianizar o índio, sem nenhuma preocupação de lhes ministrar os elementos da civilização ocidental ( falo dos jesuítas e não dos “senhores do engenho” ) as
autoridades nunca se preocuparam em protegê-los, preservando a sua cultura".
Em primeiro lugar, os jesuítas interferiram profundamente com a cultura dos índios: Deram-lhes uma nova religião, deram-lhes uma nova economia, novas práticas sociais, militares, de consumo, etc. Os jesuítas não preservaram a cultura dos índios que encontraram. Também não a eliminaram de forma radical, antes procederam a um processo de
aculturação, sem dúvida mais benigno do que o que estava a ocorrer noutros espaços.
Em segundo lugar, o Dr. Miranda implicitamente contrapõe o processo benigno de interacção realizado por religiosos - os jesuítas - face ao processo nefando realizado por não religiosos - os senhores dos engenhos. Nada mais falso. Os jesuítas não representavam toda a igreja do Brasil. Os senhores dos engenhos inseriam-se num sistema social de
que fazia parte a igreja secular e outras ordens religiosas que não subscreveram a prática dos jesuítas. A igreja foi activa participante na assimilação/segregação/eliminação dos índios e não se opôs à destruição dos territórios dos jesuítas.
O Dr. Miranda diz ainda que "Não é falso que as culturas indígenas da América tenham
sido completamente destruídas. O que nos restou dos incas e da sua avançada civilização? Não foi completamente destruída pelos espanhóis, os bárbaros dessa época?". Não. Sobrevive entre os povos andinos, pelo menos em parte. Felizmente.
Ou o regresso à ficção da inocência e paz do bom selvagem que aflora ao referir que os "pobres índios, que viviam numa absoluta paz e tranqüilidade,
em plena harmonia com a natureza". Desde quando? Os índios não eram pobres nem pacíficos. Quanto a serem ecologistas, nada garante que o continuassem a ser 'ab eterno'.
Afirmar que "A política era uma só: ou o extermínio, com a invasão de suas terras, destruição de sua gente e a abolição de seus mitos
e de sua cultura, ou a completa indiferença, o índio abandonado à própria sorte, não obstante todos os males levados aos seus territórios pelo homem branco" é igualmente incorrecto. Houve políticas diferentes em sítios diferentes e em momentos diferentes da história. É por isso que muitas populações da América Central e de alguns países da América do Sul são ainda maioritariamente compostas por descendentes de índios. Mais uma vez, felizmente que a interferência foi profunda mas não total.
Em suma, fico onde estava. Não há preto e branco neste domínio. O processo de expansão europeia teve pontos positivos e pontos
negativos. Não foi como o cavalo de Átila que onde pisava não mais crescia a erva, antes permitiu a subsistência e, em alguns casos, o florescimento de traços culturais pré-existentes. E ocorreu com a plena e dedicada implicação das igrejas cristãs do ocidente, fosse por motivos religiosos ou mundanos.
Um abraço,
Sérgio Mascarenhas
FERNANDO DO REGO <fernandodorego@...> wrote:
Monday, March 07, 2005 17:05:48
Caro Dino,
Foi grande prazer para mim, que, graças à nossa amizade de quase meio século, tivesses concordado comigo a dar a tua opinião sobre este ponto de inculturação e/ ou aculturação, em especial tu estando agora estabelecido em São Paulo- Brasil, um dos paizes onde estes problemas tem sido debatidos com intensidade.
O tua carta que li com muito interesse, mostra-me que, apesar dos teus trabalhos professionais de advogado, tens-te dedicado muito à leitura de assuntos relacionados com este tópico.
Como me autorizas a enviar o anexo aos meus próprios amigos e parentes, vou fazê-lo pois o tema é de grande importancia para a Igreja neste século
.Naturalmente, vou mandar só aos meus recipientes que falam o portugues, em especial no Brasil onde tu vives.
Um abraço
Fernando
Caros amigos,
Custodio Ubaldino Miranda é filho do Eng.Agr. José Miranda,de Loutolim
Feito o seu curso de Direito,em Lisboa, trabalhou em Goa por alguns anos,em vários cargos judiciais.Finalmente, estabeleceu-se em São Paulo onde tem a sua própria Firma de advogados.
Como devem estar lembrados,este diálogo sobre a inculturação / aculturação foi começado por mim quando vos relatei um” Facto UNIQUE na Arquidiocese de Goa”,: tendo-se realizado na Igreja de Chicalim, a cerimónia do Crisma, nela participou como recipiente um cidadão portugues de origem goesa, o Sr, Constantino Xavier, que foi vestido de “kurtá- pijama” como fora sugerido pelo Pároco/Prior dessa Freguesia.
Eu vos convido a participar neste renovado diálogo, graças à carta que o “Dino” me escreveu e que vai pelo “anexo”.
NOTA : a carta é bem longa de seis páginas. Faço esta prevenção porque muitos recipientes não gostam de receber “anexos” longos.Portanto, podem delitar esta carta sem a ler.
Convido a dois sacerdotes para dar a sua opinião, uma vez mais:
1.Pe. Vasco do Rego s.j., da Provincia de Goa
2.Pe.Antonio Colimão ,originário de Damão, hoje Reitor da Igreja de São Francisco Xavier em Lisboa, e que pertenceu à Sociedade de São Francisco Xavier ( S.F.X.), fundada em Goa – ordem esta que tem sido uma das pioneiras na inculturação.
Peço a todos os meus amigos que desejem participar que o façam pelo REPLY ALL.
A todos agradeço a vossa colaboração, mesmo que não venham a concordar com quaisquer das ideas expresssas pelos participantes.
Cordiais cumprimentos de
Fernando do Rego.
Fernando do Rego.
143-Fontainhas.Pangim 403.001.
GOA. INDIA TEL:222.6353.
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