FERNANDO DO REGO <fernandodorego@...> wrote:
Caro Dr. Sérgio,
Foi um prazer receber a sua carta, se mandei ao Fernando a minha resposta foi porque desde o início encarei-o, na qualidade
de promotor do "diálogo", digamos, um moderador.
Agradeço os seus esclarecimentos, como não há da parte de nenhum de nós a preocupação de convencer o outro das
suas idéias, só posso repetir que o diálogo, pelo menos para mim, foi gratificante e frutífero, até para ver em quais delas
possa estar incorrendo em erro.
Acho que deixei suficientemente claro na minha carta a diferenciação que faço da colonização portuguesa das demais.
Talvez a minha defesa da igreja como instituição decorra do fato de pertencer-lhe, como católico praticante que sou e esta relação de pertinência às vezes pode levar-nos a suavizar aquilo que aos olhos dos outros, estranhos a ela, aparece com maior gravidade. Creio que é isto mesmo que ocorre consigo quando fala da colonização portuguesa.
Foi um prazer conhecê-lo, ainda que por este meio e nestas circunstâncias, tendo tido a oportunidade de apreciar os seus conhecimentos e a sua cultura.
Um abraço e felicidades,
Custodio Miranda.
Sergio Mascarenhas wrote:
Caro Dr. Custódio Miranda,Torna-se penoso retorquir as pontos que levanta por interposta pessoa, pelo que opto agora por me dirigir directamente a si em lugar de o fazer ao nosso comum amigo Fernando do Rego.Há dois aspectos naquilo que escreve com os quais não posso de forma alguma concordar. Comecemos pelo segundo:O Sr. Doutor equaciona mais de uma vez o processo colonial europeu com o Apartheid ao ponto de ficar a impressão de que todo o colonialismo, já para não dizer toda a colonização e expansão europeia (insisto em que são conceitos diferentes, historica e ideologicamente). Isso não é correcto. O Apartheid foi um fenómeno extremo e tardio, localizado no tempo e no espaço (e para o qual contribuiram, inclusivamente, parte dos indianos residentes na África do Sul). Por exemplo, Portugal nunca teve fenómenos equacionáveis com o Apartheid (sem prejuízo de ter havido quem defendesse soluções semelhantes, sobretudo em Moçambique), ao contrário do que o Sr. Doutor dá a entender. Isto não isenta Portugal dos seus próprios processos de discriminação, como é evidente.O que me parece é que o Sr. Doutor aplica dois pesos e duas medidas. O processo de expansão europeia é por si equacionado com as situações mais extremas, caso do Apartheid, elevando estas à condição de regra. Por outro lado, a situação dos povos colonizados é por si equacionada com o extremo oposto ou seja com a ideia do bom e pacífico nativo (a sua «média» - mas com que base é que pode afirmar ser o bom selvagem a média?). Isto distorce de forma extrema o processo histórico pois simplifica o mesmo reduzindo todos os gradiantes à imagem do sanguinolento e bárbaro europeu que brutalizou o cândido e vitimizado autóctone.Pessoalmente acho isto inaceitável.(De caminho devo referir que o facto de ter mencionado o conceito de «bom selvagem» não foi, obviamente, para contrapor selvajaria a civilização, nem de apelar para esta contraposição como forma de justificar o processo colonial. Isso parece-me ser evidente naquilo que escrevi.)Quanto ao primeiro ponto, ele é importante quer num processo de análise histórica, quer para o dia de hoje. Trata-se do facto de o Sr. Doutor isentar a igreja como instituição das dos actos dos religiosos do passado quando estes se associaram aos aspectos mais extremos do processo colonial. Basicamente o Sr. Doutor reduz a responsabilidade aos agentes activos e pessoalmente participantes em práticas condenáveis. Isto não é aceitável.A responsabilidade histórica tem que ser atribuída à igreja católica como um todo, como instituição ou conjunto de instituições. O que os padres fizeram em suporte e instigação do processo colonial nos séculos XV a XIX ocorreu com o beneplácito da igreja ao mais alto nível. Basta ler as bulas papais que sustentaram a expansão portuguesa e espanhola. Basta considerar que o sucesso da Companhia de Jesus se deveu em grande parte à sua implicação no processo colonial.Não se pode aceitar a isenção de responsabilidades da instituição, atribuindo estas apenas aos agentes imediatamente participantes em actos condenáveis. Não, a participação cristã no processo colonial não foi apenas acção de algumas «bad apples». Essas «bad apples» fizeram aquilo que fizeram porque tinham o apoio da instituição a que pertenciam.Reparemos que este tipo de situações não é novo mas continua a repetir-se hoje. O tipo de raciocínio do Sr. Doutor é, por exemplo, aquele que isenta o Estado americano dos abusos cometidos no Iraque, no Afeganistão ou em Gantanamo. Em todos os casos os extremos são atribuídos aos indivíduos que os cometem e o Estado americano, do mais alto nível para baixo, lava as mãos.Pensar como o Sr. Doutor é eliminar o princípio da responsabilidade institucional. Se há algo que a história da Europa e do mundo ocidental revela é o que há de pernicioso nesta eliminação.Melhores cumprimentos,Sérgio MascarenhasSão Paulo, 12/03/2005Caro Fernando,
Volto a endereçar-te esta carta, na qualidade de moderador, mas confesso que não tenho a pretensão nem a veleidade de ser o dono da verdade. Dei, apenas, a minha opinião e esta carta tem o objetivo de esclarecer alguns pontos que possam ter ficado obscuros na minha carta anterior. Antes de mais, é preciso notar aquilo que de algum modo já se subentendia da leitura do meu texto anterior e que se pode resumir em uma frase, necessária, aliás, para evitar quaisquer mal entendidos: pode-se dizer que o processo colonial dos ingleses, holandeses e espanhóis foi uma mancha negra na história da humanidade e dos portugueses e franceses uma mancha cinzenta. Mas também aqui não haverá preto no branco, o que se quer é apontar a média, bem entendido. Assente isto, repito, que o colonialismo , tal como exercido na prática ( não falo do colonialismo em tese ou como fenômeno cultural), foi, pelas razões que apontei na minha carta anterior, uma mancha negra ou cinzenta na história da humanidade.
Quem não se lembra de incidentes como o de Amritsar na India, do apartheid na África do Sul e na própria India, do genocídio na América do Sul e de tantos outros males já apontados do colonialismo?. Qual é o ser humano do século XX (já nem digo XXI) que pode deixar de se indignar até à medula com essa praga, reconhecida pela gente das próprias potências coloniais numa era posterior? O que é que tudo isso tem a ver com o cristianismo? Quando falo de cristianismo, falo do ideal cristão, tal como o viveu Jesus Cristo e não na igreja católica que, embora divina na sua origem é humana a partir de Pedro e humana será pelo resto dos tempos, com todos os desvios e erros próprios de tudo o que é humano. Separemos, pois, a civitas Dei da civitas terrena.
Daqui não se conclui evidentemente que as gerações posteriores sejam de algum modo responsáveis pelos atos das anteriores; ninguém ignora que a barbárie tem a sua época e o que é considerado normal hoje pode parecer barbárie amanhã aos olhos de uma geração mais evoluída, como sem dúvida, somos, em muitos aspectos, em relação à dos nossos antepassados.
É por tudo isso que estabeleci uma distinção radical entre o processo colonial e o cristianismo; o que não quer dizer que o colonialismo não tenha sido a porta da entrada do cristianismo nos territórios pagãos, mais precisamente dos que não professavam uma religião monoteísta. Como essa porta de entrada poderia também ter sido outra: o simples espírito missionário dos cristãos, como foi o de Paulo, como até hoje, extinto o colonialismo, o é o dos evangélicos, por exemplo, e até mesmo, porque não, dos católicos.
É uma acusação grave dizer-se que a igreja, como instituição, tenha pactuado com os desvios de qualquer processo, colonial ou outro; como sempre, em toda obra humana há desvios, imputáveis a determinados homens que arrastam, com o seu verbo ou a sua autoridade, outros homens, pertencentes ou não à mesma instituição. Isso também aconteceu, e ainda acontece, com a Igreja católica, mas não creio que se possa atribuir-lhe a ela esses desvios, mas a certos de seus membros. A Igreja católica, em matéria de fé, pelo menos na minha opinião, tem sido irrepreensível ao longo dos tempos, particularmente nos dias de hoje em que são grandes as pressões sociais para que compactue com desvios de ética e da moral tradicional.
Mutatis mutandis, eu perguntaria aos hindús de Goa ou aos budistas de Ceilão: vocês também não foram alvo do processo colonial? Se assim foi, como explicar que, não obstante aquele processo, vocês não são cristãos? Se sem colonização não haveria cristianismo, como explicar que vocês permaneceram com as religiões de origem, ou seja as que precederam à chegada do colonizador? Como explicar que Goa, não obstante o colonialismo, tivesse 60 % de sua população, hindú?
Não há confusão nenhuma entre autenticidade e isolamento; o que pode haver é gradações na autenticidade e esta, na sua extrema pureza, supõe o isolamento. O colonizador, sendo especialista em apartheid, isolava as populações autóctones e daí a autenticidade extrema das respectivas culturas. Diga-se, a bem de verdade, que isso não foi assim no caso de Portugal, salvo em relação ao negro; é por isso que Portugal produziu um tertium genus como eu, que me considero um indo-português. Mas, ainda assim, porque estudei em Portugal, ali passei os inesquecíveis anos da minha juventude. Além disso, quando falo em processo colonial, tenho muito menos em vista Portugal e a França, como potências coloniais, do que os outros países a que me referi.
Certamente, os jesuítas procuravam ministrar aos índios, além dos ensinamentos da vida cristã, alguns outros, necessários à preservação de sua vida e saúde, não porque eram inerentes à civilização ocidental, mas porque, básicos que eram, os consideravam melhores para o próprio bem estar dos índios. Alguém já viu alguma foto da primeira missa aqui no Brasil ou de outros atos de evangelização? Porventura viu algum índio de fato ou uma índia de vestido, à ocidental?
A cristianização dos índios, no Brasil, se deveu exclusivamente aos jesuítas. Nunca, ninguém cantou – que injustiça - os seus feitos como mereciam. “Falar em ficção de inocência e paz do bom selvagem”, referindo-se aos índios ( quando falo pela média e não me refiro às tribos guerreiras nem aos canibais, falo da regra e não da excepção, como sempre) é desconhecer tudo quanto a moderna sociologia ensina sobre uma outra cultura, a dos índios. Não há, neste contexto, como contrapor o civilizado ao selvagem. Um índio, é portador de uma outra cultura e de uma outra civilização.
Não, realmente não são ecologistas, nem todos eles nos dias de hoje ( e portanto, “ab eterno”) porque já foram “convertidos” pelo homem branco. Em matéria de ecologia , como se está vendo, eram eles os civilizados e selvagem o homem branco. Também aqui não há preto e branco.
São estes os esclarecimentos que comporta a carta do Dr. Mascarenhas , ele tem toda a razão em dizer que não se pode ver as coisas de forma tão categórica, que há que ver a interação, o processo dialético... Talvez a veemência com que eu sustento os meus pontos de vista, fruto de convicções ( feliz ou infelizmente sou assim em tudo), não só deixe a impressão de que não partilho dessa opinião, absolutamente correta, mas também conduza a equívocos de interpretação, de parte a parte. Quis apenas deixar claro como eu vejo as coisas.
Conheço razoavelmente bem a América do Sul, algo da sua história e muito do seu presente. E, em viagens turísticas, alguns países que a constituem. Toda ela foi fruto de colonização e é um excelente instrumento de pesquisa no tema que nos ocupa. Conheço também razoavelmente bem a África do Sul, o México, melhor ainda a India e já estive algumas vezes nos Estados Unidos. Todos, países colonizados e contêm, na vida atual, uma amostra do seu passado. Isso me dá algum conforto em externar o que penso.
. Mas não posso deixar de manifestar aqui o meu respeito pelas idéias dos meus interlocutores, o Dr. Mascarenhas e o meu amigo Fernando e dizer-lhes que foi extremamente gratificante e frutuoso para mim este “triálogo”, que, da minha parte, aqui termina.
Um abraço,
Dino Miranda.
Caros Amigos
Eis a resposta do Dr DIno Miranda ao dr. Sergio Mascarenhas. Parece-me que como "moderador" tenho o dever de dar - mais uma vez - a palavra ao Dr. Sergio, pedindo-lhe que se desejar o faça até a segundafeira, 14 de março.
Agradeço aos dois a sua participação e desejo a todos um bom fim da semana
Fernando do Rego.
tertium genus
FERNANDO DO REGO <fernandodorego@...> wrote:Caros AmigosEste dialago está a tornar-se cada vez mais interessante.A carta que segue foi por mim recebida do Dr.Sergio Mascarenhas,directamente, e autorisa-me a disseminá-la o que faço com prazer.Agora tem a palavra o dr. Custodio "Dino" Miranda.!!Sao 19.35 e assim desejo uma boa noite a todosFernando do Rego.Caro amigo,Obrigado por me ter enviado o texto do Dr. Miranda. Dado esta me mencionar especificamente, merece-me um conjunto de comentários que seguem adiante. Eu enviarei esta resposta directamente para o Dr. Miranda ficando ao seu critério disseminá-la pelos destinatários da sua lista de discussão.Um abraço,Sérgio MascarenhasO Dr. Miranda esclarece de forma concludente a questão da aculturação/inculturação fazendo o que, de tão óbvio, nós não fizemos: ir ao dicionário.Refere também de forma muito interessante o carácter de subrevivência cultural do sistema de castas em Goa no processo de aculturação aqui ocorrido. Devo dizer que tendo a pensar (de forma intuitiva pois não fiz qualquer estudo aprofundado nesse sentido) que o actual sistema de castas católicas é diferente do que prevalece entre a população hindu por corresponder a uma fusão de elementos deste com o sistema nobiliárquico português. Ainda um processo de aculturação...Agora, quanto aos pontos em que o Dr. Miranda comenta o que eu escrevi:Refere ele que o processo de colonização "é uma mancha negra na história da humanidade, na medida em que cultivou a escravatura, a pilhagem, o genocídio, a perversão dos costumes das culturas locais e por aí fora" mas com uma "única 'virtude' do colonialismo: ter levado às populações autóctones, alguma coisa de bom da civilização ocidental: o progresso material, intelectual e de costumes, com a eliminação de atos de barbárie por elas praticados". Vemos que o Dr. Miranda, como muita gente aliás, olha para a expansão europeia a preto. Depois vê branco. Mas acaba concluindo que tudo é preto. Pessoalmente fico-me pelo cinzento: A expansão teve aspectos positivos e negativos. Ela não foi idêntica em todo o lado pelo que zonas houve onde predominaram os aspectos positivos e zonas onde os negativos levaram a melhor.É útil adoptarmos uma tal posição para deixarmos de olhar para a história à sombra do dedo acusador de juízos categóricos do tipo 'colonialismo = mancha negra'. E deixarmos de projectar esses juízos no presente em termos de equacionar os descendentes dos colonizadores com os crimes do passado e os descendentes dos colonizados com a vitimação pretérita. Digo isto porque não aceito ser objecto de processos - como é comum acontecer - por actos que não cometi, não aceito ser tratado como um criminoso porque os meus antepassados supostamente foram criminosos (supostamente, insisto, porque como referi antes não é claro que a expansão europeia tenha sido no global tão má como a pintam).Voltemos, no entanto caro amigo, ao ponto central da discordância manifestada pelo Dr. Miranda para com aquilo que eu escrevi. Ela decorre de o nosso interlocutor afirmar, preto no branco, que "A religião cristã nada tem a ver com o processo de colonização". Isto porque, "O colonialismo é obra da civitas terrena, o cristianismo da civitas Dei: portanto uma nada tem a ver com a outra e ponto final".Porém, já vimos que para o Dr. Miranda o colonialismo é um produto europeu, ocidental. Ora, a "A religião cristã tem a ver, sim, com a civilização ocidental". No entanto, "A identificação da igreja católica com a civilização ocidental é assim um mero 'acidente de percurso' do cristianismo", daí que "uma coisa é os países do Ocidente terem adotado a religião cristã e daí ter nascido, como fruto, e é assim que eu penso, a civilização ocidental e outra, dizer-se que ela se identifica, de algum modo, com o colonialismo: uma coisa nada tem a ver com a outra". Confesso que há aqui uma grande confusão e me é difícil perceber como é que o Dr. Miranda consegue conciliar afirmações tão categóricas. Talvez valha a pena distinguir algumas nuances que afloram no seu pensamento.O Dr. Miranda implicitamente distingue:O cristianismo que remete para a Civitas Dei, obra de Deus.A religião cristã que, tendo a ver com a civilização ocidental que a adoptou, não se reduz a esta (neste contexto se entendendo a diferenciação entre a recepção da religião cristã via ocidente - estranhamente equacionados com os ingleses - relativamente à anterior chegada daquela religião imputada a S. Tomé). A religião cristã parece ser, assim, obra humana mas obra que transcende particularismos culturais.Finalmente, temos a igreja. Ora a igreja em questão é a igreja católica, apostólica e romana. Não o diz o Dr. Miranda mas digo eu, esta igreja está na sua história intrinsecamente ligada à civilização ocidental, europeia (isto sem prejuízo de nas últimas décadas ter procurado uma postura mais ecuménica, verdadeiramente católica; sinais dos tempos). Desta igreja nos diz o Dr. Miranda que "deve se preocupar não só com a vida espiritual do ser humano, mas também com a sua vida temporal" e que está sujeita ao princípio de que "Toda a árvore dá, na sua grande maioria, frutos bons, e, por vezes, frutos podres".Esta diferenciação de cristianismo, religião cristã e igreja é altamente discutível, deve dizer-se em abono da verdade. Mas essa é discussão que não é necessário encetar no presente contexto, aceitemo-la pois (assim como não discuto aqui a diferença, igualmente importante, entre expansão e colonização europeia, e colonialismo). É, no entanto, necessário coordenar de alguma forma os três conceitos. Do meu ponto de vista, só há uma forma possível de o fazer (mais uma vez, o que se segue não é proposto pelo Dr. Miranda mas penso que decorre da lógica da sua argumentação):Para se chegar à Civitas Dei, para se ser cristão no sentido pleno do termo, é necessário praticar a religião cristã. Para se praticar a religião cristã é necessário que o crente se integre numa igreja. Uma dessas igrejas é a igreja católica, apostólica e romana.A questão que se levanta é, pois, esta: Quando se discute a implicação do fenómeno religioso na processo colonial, estamos a falar de quê (à luz dos conceitos utilizados mas não definidos pelo Dr. Miranda), estamos a situar-nos a que nível? No plano do cristianismo, da religião cristã ou da igreja?O Dr. Miranda exclui categoricamente que o cristianismo ou a religião cristã estejam implicados no processo colonial. Mas, e a igreja? Poderá ser tão categorico quanto a esta? Ou será antes que esta participou no processo colonial, tirando partido deste para, precisamente, poder chegar a mais seres humanos? E ao fazê-lo, tendo em vista a sua preocupação com a vida espiritual, interferiu necessariamente com a vida temporal? E não será que, neste processo, a igreja contribuiu para a "mancha negra" do colonialismo? Não será este um dos "frutos podres" da grande árvore católica?A resposta só pode ser uma, os factos históricos demonstram-no: A igreja católica apostólica e romana (e também as igrejas protestantes em contextos diferentes - para não falar de outras) participou activamente no processo colonial, não apenas por arrasto, mas como um dos seus mais importantes motores. É indubitável que os processos de aculturação e interferência cultural que ocorreram ao longo dos últimos cinco séculos, com o seu rol de desgraças, foram em grande medida impulsionados pela igreja.Mas porque se deu a igreja ao trabalho de participar em tal empresa? Porque entendeu que era essa a sua missão. Porque entendeu que tinha que contribuir para uma mudança radical da vida espiritual de todos aqueles que ainda não participavam na religião cristã. Entendeu ainda que isso poderia exigir uma não menos radical mudança na sua vida temporal. Não sou eu que o digo. Dizem-no os padres e religiosos do passado.A conclusão inelutável é a de que há uma implicação essencial entre expansão e colonização europeia, igrejas cristãs europeias e propagação da / participação na religião cristã. Mesmo na Índia ou em Goa. Daí que é insustentável dizer-se que "é uma aberração dizer que ser cristão na India (ou em Goa?) é aceitar uma importação colonial essencial", pelo menos para aqueles cristãos que receberam a sua religião por via colonial (logo, não se incluindo aqui os cristãos de S. Tomé).O facto que não pode ser ignorado de forma alguma é este: Sem processo colonial não haveriam os milhões de cristãos que existem por esse mundo fora na América, na África, na Ásia e na Oceânia.Há, aliás, uma contraprova que é muito fácil de fazer: Pergunte-se aos descendentes daqueles que, sugeitos ao processo colonial, escaparam à conversão. Pergunte-se aos hindus de Goa, por exempo; aos budistas do Ceilão; aos cristãos de S. Tomé do sul da Índia que se oposeram à sua catolização no século XVII. Pergunte-se-lhes se, eles também, concordam que não há nada que ligue cristianismo, religião cristã, igrejas cristãs ao processo colonial. Eu sei a resposta mas deixo ao critério do meu amigo obtê-la para si.Mas o processo de aculturação decorrente da expansão europeia não se restringiu apenas à religião, antes tocou nos patrimónios culturais a ela sujeitos como um todo. Hoje, no termo do processo, torna-se por isso importante discutir o produto do mesmo. Perdeu-se ou ganhou-se? À luz de que critérios é que se pode avaliar o que se perdeu ou ganhou? É neste contexto que é fundamental discutir a questão da autenticidade cultural.Diz-nos o Dr. Miranda que "há culturas autênticas, sim, e que pouca ou nenhuma influência tiveram, de elementos exógenos". Bem, há aqui uma confusão entre autenticidade e isolamento.Há, de facto, culturas que se desenvolvem num estado de isolamento. As culturas americanas pré-colombianas, por exemplo. Mas isso não quer dizer que elas não tenham sofrido influências e cruzamentos culturais. Desde logo pelo facto de que, no passado distante, os povos da América vieram da Ásia. Se olharmos para aquelas culturas onde situamos a génese da sua autênticidade?Punhamos as coisas nos seguintes termos: As culturas americanas de hoje, produto de processos de aculturação e combinação cultural, abertas a influências muito diversas vindas de pontos muito distantes, não são autênticas? Quem se atreve a defender tal ideia?Do meu ponto de vista todas as culturas são autênticas. O que as faz autênticas é o facto de terem algo a dizer que lhes é único, algo que não se encontra em nenhuma outra cultura. Por isso todas são valiosas. Independentemente de terem por trás uma história documentada de intercâmbios culturais ou de, por a não terem devido a longos períodos de isolamento, projectarem a ideia de que cresceram sem quaisquer influências externas.Há ainda que reparar em que o Dr. Miranda analisa alguns fenómenos históricos de forma parcial. Tomemos o que ele nos diz ao referir que "Enquanto os jesuítas portugueses procuravam cristianizar o índio, sem nenhuma preocupação de lhes ministrar os elementos da civilização ocidental ( falo dos jesuítas e não dos “senhores do engenho” ) as autoridades nunca se preocuparam em protegê-los, preservando a sua cultura".Em primeiro lugar, os jesuítas interferiram profundamente com a cultura dos índios: Deram-lhes uma nova religião, deram-lhes uma nova economia, novas práticas sociais, militares, de consumo, etc. Os jesuítas não preservaram a cultura dos índios que encontraram. Também não a eliminaram de forma radical, antes procederam a um processo de aculturação, sem dúvida mais benigno do que o que estava a ocorrer noutros espaços.Em segundo lugar, o Dr. Miranda implicitamente contrapõe o processo benigno de interacção realizado por religiosos - os jesuítas - face ao processo nefando realizado por não religiosos - os senhores dos engenhos. Nada mais falso. Os jesuítas não representavam toda a igreja do Brasil. Os senhores dos engenhos inseriam-se num sistema social de que fazia parte a igreja secular e outras ordens religiosas que não subscreveram a prática dos jesuítas. A igreja foi activa participante na assimilação/segregação/eliminação dos índios e não se opôs à destruição dos territórios dos jesuítas.O Dr. Miranda diz ainda que "Não é falso que as culturas indígenas da América tenham sido completamente destruídas. O que nos restou dos incas e da sua avançada civilização? Não foi completamente destruída pelos espanhóis, os bárbaros dessa época?". Não. Sobrevive entre os povos andinos, pelo menos em parte. Felizmente.Ou o regresso à ficção da inocência e paz do bom selvagem que aflora ao referir que os "pobres índios, que viviam numa absoluta paz e tranqüilidade, em plena harmonia com a natureza". Desde quando? Os índios não eram pobres nem pacíficos. Quanto a serem ecologistas, nada garante que o continuassem a ser 'ab eterno'.Afirmar que "A política era uma só: ou o extermínio, com a invasão de suas terras, destruição de sua gente e a abolição de seus mitos e de sua cultura, ou a completa indiferença, o índio abandonado à própria sorte, não obstante todos os males levados aos seus territórios pelo homem branco" é igualmente incorrecto. Houve políticas diferentes em sítios diferentes e em momentos diferentes da história. É por isso que muitas populações da América Central e de alguns países da América do Sul são ainda maioritariamente compostas por descendentes de índios. Mais uma vez, felizmente que a interferência foi profunda mas não total.Em suma, fico onde estava. Não há preto e branco neste domínio. O processo de expansão europeia teve pontos positivos e pontos negativos. Não foi como o cavalo de Átila que onde pisava não mais crescia a erva, antes permitiu a subsistência e, em alguns casos, o florescimento de traços culturais pré-existentes. E ocorreu com a plena e dedicada implicação das igrejas cristãs do ocidente, fosse por motivos religiosos ou mundanos.Um abraço,Sérgio Mascarenhas
FERNANDO DO REGO <fernandodorego@...> wrote:
Monday, March 07, 2005 17:05:48
Caro Dino,
Foi grande prazer para mim, que, graças à nossa amizade de quase meio século, tivesses concordado comigo a dar a tua opinião sobre este ponto de inculturação e/ ou aculturação, em especial tu estando agora estabelecido em São Paulo- Brasil, um dos paizes onde estes problemas tem sido debatidos com intensidade.
O tua carta que li com muito interesse, mostra-me que, apesar dos teus trabalhos professionais de advogado, tens-te dedicado muito à leitura de assuntos relacionados com este tópico.
Como me autorizas a enviar o anexo aos meus próprios amigos e parentes, vou fazê-lo pois o tema é de grande importancia para a Igreja neste século
.Naturalmente, vou mandar só aos meus recipientes que falam o portugues, em especial no Brasil onde tu vives.
Um abraço
Fernando
Caros amigos,
Custodio Ubaldino Miranda é filho do Eng.Agr. José Miranda,de Loutolim
Feito o seu curso de Direito,em Lisboa, trabalhou em Goa por alguns anos,em vários cargos judiciais.Finalmente, estabeleceu-se em São Paulo onde tem a sua própria Firma de advogados.
Como devem estar lembrados,este diálogo sobre a inculturação / aculturação foi começado por mim quando vos relatei um” Facto UNIQUE na Arquidiocese de Goa”,: tendo-se realizado na Igreja de Chicalim, a cerimónia do Crisma, nela participou como recipiente um cidadão portugues de origem goesa, o Sr, Constantino Xavier, que foi vestido de “kurtá- pijama” como fora sugerido pelo Pároco/Prior dessa Freguesia.
Eu vos convido a participar neste renovado diálogo, graças à carta que o “Dino” me escreveu e que vai pelo “anexo”.
NOTA : a carta é bem longa de seis páginas. Faço esta prevenção porque muitos recipientes não gostam de receber “anexos” longos.Portanto, podem delitar esta carta sem a ler.
Convido a dois sacerdotes para dar a sua opinião, uma vez mais:
1.Pe. Vasco do Rego s.j., da Provincia de Goa
2.Pe.Antonio Colimão ,originário de Damão, hoje Reitor da Igreja de
São Francisco Xavier em Lisboa, e que pertenceu à Sociedade de São Francisco Xavier ( S.F.X.), fundada emGoa – ordem esta que tem sido uma das pioneiras na inculturação.Peço a todos os meus amigos que desejem participar que o façam pelo REPLY ALL.
A todos agradeço a vossa colaboração, mesmo que não venham a concordar com quaisquer das ideas expresssas pelos participantes.
Cordiais cumprimentos de
Fernando do Rego.
Fernando do Rego.143-Fontainhas.Pangim 403.001.GOA. INDIA TEL:222.6353.Yahoo! India Matrimony: Find your life partner online.
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