Aos Amigos
Cadê a frase do pára-choque?
Consagrados pelos caminhoneiros nos anos 60, os folclóricos ditos caíram em
desuso e estão quase extintos.
A poesia das estradas emudeceu. Silenciosos, os pára-choques de caminhão
quase não propagam mais as famosas frases que tanto divertiram motoristas
das rodovias brasileiras.
Engraçados na maioria das situações, às vezes carregados de romantismo e
nostalgia, portadores da fé de alguns, de vez em quando preconceituosos ou
inoportunos, mas sempre fiéis representantes do folclore nacional, os ditos
populares consagrados pelos transportadores foram sendo substituídos. Pouco
a pouco, deram lugar a tintas pretas e amarelas, faixas reflexivas ou
apetrechos de segurança.
Começou há uma década o processo de extinção das frases de caminhão escritas
nos pára-choques traseiros. Em 1996, uma resolução do Departamento Nacional
de Trânsito (Denatran) determinou dimensões e pintura padrão do equipamento.
Quatro anos depois, outra resolução instituiu a adoção de adesivos
reflexivos.
Daí em diante, a filosofia de boléia quase caiu no esquecimento. Sobram
ainda outros equipamentos onde poderia figurar, mas não ocorre dessa forma.
- Hoje, a cultura da frase de caminhão está perdida. Não totalmente porque
existem o apara-barro e o sobrepára-choque como locais alternativos. Alguns
escrevem algo até na carroceria, mas é difícil - diz André Costa, secretário
da Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Rio Grande do Sul e de Santa
Catarina (Fecam).
No Estado, a entidade estima que cerca de 230 mil pessoas trabalhem nas
boléias.
Raridade no asfalto, o veículo dirigido por Darcimar Pereira de Barros, 40
anos, um caminhão-baú, tem no pequeno sobrepára-choque o escrito "Segura na
mão de Deus e vai". Natural de Rio Pardo, ele dirige o caminhão da empresa
onde trabalha e recebeu autorização para pintar a frase.
- Não sou religioso, não. Mas me veio na cabeça essa frase aí, e eu resolvi
escrever - justifica Barros.
Conforme a assessoria de imprensa do Comando Estadual da Polícia Rodoviária
Federal (PRF), não há uma determinação para que se restrinja o uso das
frases.
Para Elemar Gass, 41 anos, caminhoneiro de São Sepé, as frases não sumiram
em função das normas de trânsito, mas sim porque saíram de moda. A opinião é
compartilhada pelo colega e conterrâneo Erico Gressler, 42 anos.
Há uma década Gass carregava um vistoso "Eu, ela e um grande sonho" na parte
traseira do veículo. Hoje, o espaço está vazio.
- Caiu de moda. Só isso. Realmente eu não vejo mais essas frases nas
estradas - afirma.
Zero Hora, Porto Alegre, 11 jun. 2006.
Consagrados pelos caminhoneiros nos anos 60, os folclóricos ditos caíram em
desuso e estão quase extintos.
A poesia das estradas emudeceu. Silenciosos, os pára-choques de caminhão
quase não propagam mais as famosas frases que tanto divertiram motoristas
das rodovias brasileiras.
Engraçados na maioria das situações, às vezes carregados de romantismo e
nostalgia, portadores da fé de alguns, de vez em quando preconceituosos ou
inoportunos, mas sempre fiéis representantes do folclore nacional, os ditos
populares consagrados pelos transportadores foram sendo substituídos. Pouco
a pouco, deram lugar a tintas pretas e amarelas, faixas reflexivas ou
apetrechos de segurança.
Começou há uma década o processo de extinção das frases de caminhão escritas
nos pára-choques traseiros. Em 1996, uma resolução do Departamento Nacional
de Trânsito (Denatran) determinou dimensões e pintura padrão do equipamento.
Quatro anos depois, outra resolução instituiu a adoção de adesivos
reflexivos.
Daí em diante, a filosofia de boléia quase caiu no esquecimento. Sobram
ainda outros equipamentos onde poderia figurar, mas não ocorre dessa forma.
- Hoje, a cultura da frase de caminhão está perdida. Não totalmente porque
existem o apara-barro e o sobrepára-choque como locais alternativos. Alguns
escrevem algo até na carroceria, mas é difícil - diz André Costa, secretário
da Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Rio Grande do Sul e de Santa
Catarina (Fecam).
No Estado, a entidade estima que cerca de 230 mil pessoas trabalhem nas
boléias.
Raridade no asfalto, o veículo dirigido por Darcimar Pereira de Barros, 40
anos, um caminhão-baú, tem no pequeno sobrepára-choque o escrito "Segura na
mão de Deus e vai". Natural de Rio Pardo, ele dirige o caminhão da empresa
onde trabalha e recebeu autorização para pintar a frase.
- Não sou religioso, não. Mas me veio na cabeça essa frase aí, e eu resolvi
escrever - justifica Barros.
Conforme a assessoria de imprensa do Comando Estadual da Polícia Rodoviária
Federal (PRF), não há uma determinação para que se restrinja o uso das
frases.
Para Elemar Gass, 41 anos, caminhoneiro de São Sepé, as frases não sumiram
em função das normas de trânsito, mas sim porque saíram de moda. A opinião é
compartilhada pelo colega e conterrâneo Erico Gressler, 42 anos.
Há uma década Gass carregava um vistoso "Eu, ela e um grande sonho" na parte
traseira do veículo. Hoje, o espaço está vazio.
- Caiu de moda. Só isso. Realmente eu não vejo mais essas frases nas
estradas - afirma.
Zero Hora, Porto Alegre, 11 jun. 2006.
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