Amigos
Quando descrevo minha juventude em passado recente, no período de 1960 aos meus 18 anos de vida e esperanças. Trago imagens e acontecimentos do construir uma sociedade melhor com grandes produções no campo da cultura, industrial,
medicina com advento do transplante de coração, etc. Percebia um crescer sábio e focado proporcionado a todos interessados. Hoje os fatos são bem diferentes ao lermos os jornais diários, repletos de muita violência.
O artigo abaixo foca bem como se comportava nossa sociedade no período áureo.
Abraços
Walter.
O grande mercado de marionetes
Ainda existem tesouros em meio ao lixo dos dias. Podemos garimpá-los.
a Tom Zé, Arrigo, Itamar Assunção, Lenine e Chico Sciense, numa reverência.
Se você tem menos de 30 anos certamente terá um pouco de dificuldade em acreditar no que vou revelar agora. Se, por acaso, tem mais de 30, sentirá uma leve nostalgia ou até mesmo um desculpável saudosismo. Aí vai a revelação bombástica: o Brasil já teve uma arte e cultura próprias, autênticas. Acredite se quiser.
Não falo de nenhuma civilização perdida. Falo de uma época em que ainda existiam artistas, na pura acepção da palavra. Uma época em que um compositor ou escritor lançava um disco ou livro preocupado "apenas" em expressar sua arte e talento; em comunicar algo que tocasse a alma das pessoas. A arte era, por princípio, a manifestação livre do espírito humano que visava "tocar" a alma do outro, e assim cumpria o seu papel. A arte não era tão somente uma mercadoria.
Era uma época em que ainda havia ideologias. Valores como ética, moral e justiça não eram meros conceitos vagos e desgastados. Uma época em que as pessoas reuniam-se nos botecos, nas universidades, nos centros de estudos, nas igrejas, nas casas dos amigos para conversar sobre as pequenas e grandes questões que afligiam os homens e as nações. Uma época em que se celebrava a vida e havia mais solidariedade entre os homens. Pode parecer inacreditável, mas esse tempo de fato existiu!
Não pretendo aqui fazer nenhum ensaio definitivo na linha da antropologia cultural ou da sociologia de massas. Não desejo citar Lévi-Strauss ou McLuhan, prefiro o olhar de Darci Ribeiro e Ariano Suassuna. Não sou acadêmico, sou apenas um cronista e poeta bissexto. Portanto, cabe-me relatar-lhes nesse despretensioso texto uma espécie de crônica da nossa indigência cultural. Numa tentativa de rascunhar, tal qual um poeta cioso de seu ofício, alguns registros de uma espécie de arqueologia da alma humana.
Vai longe, por exemplo, o tempo em que as famílias reuniam-se na sala de estar, ou de jantar, e faziam desse momento um instante de comunhão quando conversavam sobre assuntos diversos. O patriarca contava histórias da família, transmitia ensinamentos e valores. Havia forte laço de cumplicidade entre os membros de uma família. Havia um vínculo de amor e amizade. Um agradável cheiro e sabor de café inebriava os sentidos.
Não se sabe ao certo, acredita-se que tudo começou quando silenciou o último aparelho de rádio daqueles “antigões” de válvulas, com o surgimento da televisão. Com a chegada desse aparelho à sala de jantar, ou de estar, ele passou a monopolizar as atenções em todas as casas. O seu brilho azulado hipnotizou a todos. A TV revelou-se uma sedutora rota de fuga e individualização. Uma espécie de janela para o mundo, uma fresta. Uma nesga de luz para os encarcerados. O “farol da civilização" chegou para libertar o homem da clausura e para lhe orientar o rumo. Porém essa mesma luz parece hoje lhe ofuscar a visão.
Numa sociedade de massas, o real não é o que acontece de fato, mas o que é retratado na mídia. O que não aparece nos jornais ou na TV não aconteceu para a maior parcela das pessoas de determinada comunidade, mesmo que tenha acontecido de fato. Ao passo que qualquer indivíduo anônimo – independente de seus méritos ou qualidades – que seja submetido a uma razoável exposição na mídia alcançará facilmente o "Olympo" da fama. Experimentamos, sob o signo da aldeia global, a idade mídia. Apreendemos a realidade cada vez mais através da telinha da televisão. Nossos filhos são educados pela babá eletrônica. Vivemos o império da imagem.
Com a "educação" pela imagem, os demais sentidos foram sendo atrofiados. O arcaico e laborioso prazer da leitura foi perdendo espaço para a moderna leniência, para a comodidade da informação imediata e ágil num flash de luz. A leitura, por sua vez, exige uma entrega e dedicação quase sacerdotal, e o exercício pleno dos sentidos e da imaginação. Ao passo que a imagem advinda da TV é quase sempre "relaxante" e nos é entregue em casa, pronta para o consumo. A imaginação já não se faz necessária. A imagem nos diz tudo. Já não é necessário pensar. Com isso fomos deixando pouco a pouco os livros de lado, e o valor do conhecimento foi negligenciado. A palavra então perdeu seu poder de sedução e encantamento. A tradição oral foi sepultada. O silêncio é imperativo diante do aparelho de TV, e a arte da retórica torna-se desnecessária numa terra de surdos e emudecidos.
Experimentamos então o empobrecimento dos sentidos, o empobrecimento da alma. Na esteira da “idade mídia”, da comunicação de massa e da propaganda, surgiu a indústria da cultura, da moda e do entretenimento. E a indústria cultural – como toda indústria – produz em larga escala para vender muito, atendendo assim a uma demanda "forjada" ou estimulada pela mídia e pela moda. O indivíduo perde a identidade em meio à multidão. Vivemos tal como “cordeiros dopados” tangidos rumo ao matadouro. Somos todos mercadorias à venda num grande mercado de almas.
Mas, à margem da indústria, ainda se encontra o trabalho dedicado e delicado de alguns poucos artesãos. Ainda podemos encontrar alguns verdadeiros artistas perdidos por aí. Mas será inútil procurá-los no chamado show business, na grande imprensa e seus “cadernos de cultura”, nas grandes livrarias, no chamado "teatrão" ou nos programas de auditório da TV. Esses "produtos" não estão disponíveis nas prateleiras dos supermercados da indústria cultural. A arte não é uma mercadoria.
A indústria praticamente extinguiu os artesãos. Mas ainda se encontram bons alfaiates e rendeiras por aí. Ainda existem tesouros em meio ao lixo dos dias. Podemos garimpá-los. Ou então, nos rendermos de vez à uniformização da indústria, comprarmos um uniforme qualquer e sairmos por aí requebrando o esqueleto como um títere disforme e “esgualepado”. Como se fôssemos apenas mais uma criatura inocente vagando perdida na multidão.
N.A – Texto extraído do livro Balão de Ensaios – poesia e engajamento
Se você tem menos de 30 anos certamente terá um pouco de dificuldade em acreditar no que vou revelar agora. Se, por acaso, tem mais de 30, sentirá uma leve nostalgia ou até mesmo um desculpável saudosismo. Aí vai a revelação bombástica: o Brasil já teve uma arte e cultura próprias, autênticas. Acredite se quiser.
Não falo de nenhuma civilização perdida. Falo de uma época em que ainda existiam artistas, na pura acepção da palavra. Uma época em que um compositor ou escritor lançava um disco ou livro preocupado "apenas" em expressar sua arte e talento; em comunicar algo que tocasse a alma das pessoas. A arte era, por princípio, a manifestação livre do espírito humano que visava "tocar" a alma do outro, e assim cumpria o seu papel. A arte não era tão somente uma mercadoria.
Era uma época em que ainda havia ideologias. Valores como ética, moral e justiça não eram meros conceitos vagos e desgastados. Uma época em que as pessoas reuniam-se nos botecos, nas universidades, nos centros de estudos, nas igrejas, nas casas dos amigos para conversar sobre as pequenas e grandes questões que afligiam os homens e as nações. Uma época em que se celebrava a vida e havia mais solidariedade entre os homens. Pode parecer inacreditável, mas esse tempo de fato existiu!
Não pretendo aqui fazer nenhum ensaio definitivo na linha da antropologia cultural ou da sociologia de massas. Não desejo citar Lévi-Strauss ou McLuhan, prefiro o olhar de Darci Ribeiro e Ariano Suassuna. Não sou acadêmico, sou apenas um cronista e poeta bissexto. Portanto, cabe-me relatar-lhes nesse despretensioso texto uma espécie de crônica da nossa indigência cultural. Numa tentativa de rascunhar, tal qual um poeta cioso de seu ofício, alguns registros de uma espécie de arqueologia da alma humana.
Vai longe, por exemplo, o tempo em que as famílias reuniam-se na sala de estar, ou de jantar, e faziam desse momento um instante de comunhão quando conversavam sobre assuntos diversos. O patriarca contava histórias da família, transmitia ensinamentos e valores. Havia forte laço de cumplicidade entre os membros de uma família. Havia um vínculo de amor e amizade. Um agradável cheiro e sabor de café inebriava os sentidos.
Não se sabe ao certo, acredita-se que tudo começou quando silenciou o último aparelho de rádio daqueles “antigões” de válvulas, com o surgimento da televisão. Com a chegada desse aparelho à sala de jantar, ou de estar, ele passou a monopolizar as atenções em todas as casas. O seu brilho azulado hipnotizou a todos. A TV revelou-se uma sedutora rota de fuga e individualização. Uma espécie de janela para o mundo, uma fresta. Uma nesga de luz para os encarcerados. O “farol da civilização" chegou para libertar o homem da clausura e para lhe orientar o rumo. Porém essa mesma luz parece hoje lhe ofuscar a visão.
Numa sociedade de massas, o real não é o que acontece de fato, mas o que é retratado na mídia. O que não aparece nos jornais ou na TV não aconteceu para a maior parcela das pessoas de determinada comunidade, mesmo que tenha acontecido de fato. Ao passo que qualquer indivíduo anônimo – independente de seus méritos ou qualidades – que seja submetido a uma razoável exposição na mídia alcançará facilmente o "Olympo" da fama. Experimentamos, sob o signo da aldeia global, a idade mídia. Apreendemos a realidade cada vez mais através da telinha da televisão. Nossos filhos são educados pela babá eletrônica. Vivemos o império da imagem.
Com a "educação" pela imagem, os demais sentidos foram sendo atrofiados. O arcaico e laborioso prazer da leitura foi perdendo espaço para a moderna leniência, para a comodidade da informação imediata e ágil num flash de luz. A leitura, por sua vez, exige uma entrega e dedicação quase sacerdotal, e o exercício pleno dos sentidos e da imaginação. Ao passo que a imagem advinda da TV é quase sempre "relaxante" e nos é entregue em casa, pronta para o consumo. A imaginação já não se faz necessária. A imagem nos diz tudo. Já não é necessário pensar. Com isso fomos deixando pouco a pouco os livros de lado, e o valor do conhecimento foi negligenciado. A palavra então perdeu seu poder de sedução e encantamento. A tradição oral foi sepultada. O silêncio é imperativo diante do aparelho de TV, e a arte da retórica torna-se desnecessária numa terra de surdos e emudecidos.
Experimentamos então o empobrecimento dos sentidos, o empobrecimento da alma. Na esteira da “idade mídia”, da comunicação de massa e da propaganda, surgiu a indústria da cultura, da moda e do entretenimento. E a indústria cultural – como toda indústria – produz em larga escala para vender muito, atendendo assim a uma demanda "forjada" ou estimulada pela mídia e pela moda. O indivíduo perde a identidade em meio à multidão. Vivemos tal como “cordeiros dopados” tangidos rumo ao matadouro. Somos todos mercadorias à venda num grande mercado de almas.
Mas, à margem da indústria, ainda se encontra o trabalho dedicado e delicado de alguns poucos artesãos. Ainda podemos encontrar alguns verdadeiros artistas perdidos por aí. Mas será inútil procurá-los no chamado show business, na grande imprensa e seus “cadernos de cultura”, nas grandes livrarias, no chamado "teatrão" ou nos programas de auditório da TV. Esses "produtos" não estão disponíveis nas prateleiras dos supermercados da indústria cultural. A arte não é uma mercadoria.
A indústria praticamente extinguiu os artesãos. Mas ainda se encontram bons alfaiates e rendeiras por aí. Ainda existem tesouros em meio ao lixo dos dias. Podemos garimpá-los. Ou então, nos rendermos de vez à uniformização da indústria, comprarmos um uniforme qualquer e sairmos por aí requebrando o esqueleto como um títere disforme e “esgualepado”. Como se fôssemos apenas mais uma criatura inocente vagando perdida na multidão.
N.A – Texto extraído do livro Balão de Ensaios – poesia e engajamento
"Teotonio R. de Souza [Moderator]" <teodesouza@...> escreveu:
Caros amigos
Acho que este forum deveria ter mais contribuições em português. Caso
contrário a designação do forum deixa de ter muito sentido.
http://apostarnahistoria.blogspot.com/2006/06/investigao-uma-psico-
histria-conectada.html
Cumprimentos e bom trabalho
Teotonio
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