Caros Amigos
Jeca é um personagem do livro de Monteiro Lobato. Ele é Paulista de Taubaté, 60
km . da capital - São Paulo. Cheguei a conhecê-lo quando criança. Apresente aos amigos professores de literatura brasileira vão adorar o tema. Ótimo texto a ser desenvolvido, análise literária e gramatical.
Walter.
Dialética do jeca
"Moda Inviolada" estuda a transformação da música caipira em sertaneja
(Daniel Buarque)
A aparência atual do gênero está mais para caubói hollywoodiano, o som sai
de guitarras, teclados e apresenta batidas eletrônicas, as letras são
melosas e românticas. Mas, na origem de toda música sertaneja, estão as
duplas de música caipira do início do século.
A trajetória do estilo -do surgimento da miscigenação de culturas populares
no interior do Brasil à apropriação pela indústria cultural- é analisada em
"Moda Inviolada", estudo recém-lançado pelo pesquisador Walter de Sousa.
Em entrevista à Folha, o doutorando em ciência da comunicação na Escola de
Comunicações e Artes da USP explica o processo de canibalização das
tradições pelo mercado de massa e defende a resistência cultural do que
ainda resta das origens folclóricas -como a música caipira, estilo híbrido,
oscilando eternamente entre o urbano e o rural.
FOLHA - Como a indústria cultural absorve a música caipira para
transformá-la em sertaneja?
WALTER DE SOUSA - É um processo que se iniciou em 1929, quando a música
caipira foi gravada pela primeira vez. Cornélio Pires pegou então a música
folclórica cantada por duplas no interior e a formatou nos moldes da
indústria cultural, limitando o tempo de gravação. Ao perceber que se
tratava de um estilo comercialmente atraente, as gravadoras da época
passaram a investir na música caipira, mantendo as bases de música
folclórica adaptada.
FOLHA - Mas essa adaptação ainda não distorcia o estilo?
SOUSA - Não, a distorção se inicia no final da década de 40, com
incorporação de estilos como o rasqueado, do Paraguai. A partir de então, a
música caipira passou a incorporar uma série de influências de gêneros
latinos e em seguida, nos anos 60, do rock, especialmente a presença da
guitarra, que faria a grande transformação no final dos anos 70 rumo ao
sertanejo. A partir do momento em que a indústria cultural começou a
perceber que se tratava de um estilo vendável e que, quanto mais
incorporasse influências externas, mais se tornaria pop e atraente, esse
processo de distorção de acelerou.
FOLHA - O processo se deu naturalmente, vindo dos próprios artistas, ou foi
algo imposto pelo mercado?
SOUSA - No início foi natural, mas a partir da década de 80 ficou bem clara
a intenção de ser vendável. A indústria fonográfica, as rádios, percebendo
que a introdução especialmente de guitarras e teclados tornavam o estilo
muito popular, passaram então a explorá-lo. Isso coincide historicamente com
a ascensão da classe média, que se tornaria consumidora do estilo já
completamente transformado. A dupla que fez essa transição de forma mais
marcante foi Chitãozinho e Xororó, que inaugurou a virada para o sertanejo.
FOLHA - O que fica da origem caipira nesse estilo transformado?
SOUSA - Praticamente apenas o canto em duas vozes. A indústria cultural
transformou o discurso, o ritmo e tudo o mais, criando um estilo romântico
cantado num formato de duas vozes, assim como o caipira.
FOLHA - E a mudança para um público mais urbano, como se dá?
SOUSA - Desde o surgimento, a música caipira é representativa de uma
diáspora do campo rumo à cidade, à periferia. A partir dos anos 80, ele
assume um público classe média completamente urbanizado.
FOLHA - Essa modernização se contrapõe à idéia do Jeca Tatu, aquele não se
adapta ao progresso?
SOUSA - O jeca original, o caipira, assume um discurso até hoje em busca da
simplicidade na vida, mesmo sem o atraso pejorativo que se atribui a ele. A
música sertaneja, por outro lado, tenta contradizer esse jeca dizendo que
ele evoluiu: hoje anda de picape, participa de rodeio, usa chapéu de
caubói...
FOLHA - Qual o lugar social do caipira hoje?
SOUSA - Até hoje ainda há muitas pessoas envolvidas com o que a indústria
chama de música de raiz -termo de que discordo, uma vez que, como diz
Antonio Candido [leia texto acima], o caipira é transitório, sem ter terra,
sempre fronteiriço, híbrido, entre o urbano e o rural. As pessoas que optam
pelo caipira hoje buscam manter a tradição, o discurso original, da
simplicidade voluntária. Criticam a opção declaradamente comercial do
sertanejo.
FOLHA - A defesa da tradição é também nacionalista, em oposição ao
"americanismo" do sertanejo?
SOUSA - Sem dúvida. Eles defendem a própria cultura reclamando da
incorporação do que vem de fora. O sertanejo se diluiu tanto nessas
influências que muitos artistas acabaram por voltar a essas origens, a fim
de resgatar suas referências, por mais que voltem a desfocá-las logo em
seguida.
FOLHA - O músico sertanejo, então, não rejeita o caipira como o caipira o
rejeita?
SOUSA - É uma relação de respeito e ancestralidade.
FOLHA - E o caipira permite a evolução do seu estilo ou fica preso à pureza
de origem?
SOUSA - Permite, sim, de forma bem mais lenta, mantendo o discurso original
e sem desvirtuar essa origem.
MODA INVIOLADA - UMA HISTÓRIA DA MÚSICA CAIPIRA
Autor: Walter de Sousa
Editora: Quiron (tel. 0/xx/11/6953-4211)
Quanto: R$ 80 (250 págs.)
Caipira é tema de estudo central
"Os Parceiros do Rio Bonito -Estudo sobre o Caipira Paulista e a
Transformação dos Seus Meios de Vida", do crítico e professor aposentado de
teoria literária da USP Antonio Candido (ed. 34/Duas Cidades) é um dos mais
importantes estudos sobre o modo de vida caipira e seu declínio.
Originalmente uma tese de doutorado em sociologia defendida em 1954 na
Universidade de São Paulo, "Os Parceiros do Rio Bonito" recorre à crítica de
viés marxista, focalizando a humanidade do caipira, afeito à natureza, e sua
alienação no capitalismo.
Folha de S.Paulo, 30 jul. 2006.
"Moda Inviolada" estuda a transformação da música caipira em sertaneja
(Daniel Buarque)
A aparência atual do gênero está mais para caubói hollywoodiano, o som sai
de guitarras, teclados e apresenta batidas eletrônicas, as letras são
melosas e românticas. Mas, na origem de toda música sertaneja, estão as
duplas de música caipira do início do século.
A trajetória do estilo -do surgimento da miscigenação de culturas populares
no interior do Brasil à apropriação pela indústria cultural- é analisada em
"Moda Inviolada", estudo recém-lançado pelo pesquisador Walter de Sousa.
Em entrevista à Folha, o doutorando em ciência da comunicação na Escola de
Comunicações e Artes da USP explica o processo de canibalização das
tradições pelo mercado de massa e defende a resistência cultural do que
ainda resta das origens folclóricas -como a música caipira, estilo híbrido,
oscilando eternamente entre o urbano e o rural.
FOLHA - Como a indústria cultural absorve a música caipira para
transformá-la em sertaneja?
WALTER DE SOUSA - É um processo que se iniciou em 1929, quando a música
caipira foi gravada pela primeira vez. Cornélio Pires pegou então a música
folclórica cantada por duplas no interior e a formatou nos moldes da
indústria cultural, limitando o tempo de gravação. Ao perceber que se
tratava de um estilo comercialmente atraente, as gravadoras da época
passaram a investir na música caipira, mantendo as bases de música
folclórica adaptada.
FOLHA - Mas essa adaptação ainda não distorcia o estilo?
SOUSA - Não, a distorção se inicia no final da década de 40, com
incorporação de estilos como o rasqueado, do Paraguai. A partir de então, a
música caipira passou a incorporar uma série de influências de gêneros
latinos e em seguida, nos anos 60, do rock, especialmente a presença da
guitarra, que faria a grande transformação no final dos anos 70 rumo ao
sertanejo. A partir do momento em que a indústria cultural começou a
perceber que se tratava de um estilo vendável e que, quanto mais
incorporasse influências externas, mais se tornaria pop e atraente, esse
processo de distorção de acelerou.
FOLHA - O processo se deu naturalmente, vindo dos próprios artistas, ou foi
algo imposto pelo mercado?
SOUSA - No início foi natural, mas a partir da década de 80 ficou bem clara
a intenção de ser vendável. A indústria fonográfica, as rádios, percebendo
que a introdução especialmente de guitarras e teclados tornavam o estilo
muito popular, passaram então a explorá-lo. Isso coincide historicamente com
a ascensão da classe média, que se tornaria consumidora do estilo já
completamente transformado. A dupla que fez essa transição de forma mais
marcante foi Chitãozinho e Xororó, que inaugurou a virada para o sertanejo.
FOLHA - O que fica da origem caipira nesse estilo transformado?
SOUSA - Praticamente apenas o canto em duas vozes. A indústria cultural
transformou o discurso, o ritmo e tudo o mais, criando um estilo romântico
cantado num formato de duas vozes, assim como o caipira.
FOLHA - E a mudança para um público mais urbano, como se dá?
SOUSA - Desde o surgimento, a música caipira é representativa de uma
diáspora do campo rumo à cidade, à periferia. A partir dos anos 80, ele
assume um público classe média completamente urbanizado.
FOLHA - Essa modernização se contrapõe à idéia do Jeca Tatu, aquele não se
adapta ao progresso?
SOUSA - O jeca original, o caipira, assume um discurso até hoje em busca da
simplicidade na vida, mesmo sem o atraso pejorativo que se atribui a ele. A
música sertaneja, por outro lado, tenta contradizer esse jeca dizendo que
ele evoluiu: hoje anda de picape, participa de rodeio, usa chapéu de
caubói...
FOLHA - Qual o lugar social do caipira hoje?
SOUSA - Até hoje ainda há muitas pessoas envolvidas com o que a indústria
chama de música de raiz -termo de que discordo, uma vez que, como diz
Antonio Candido [leia texto acima], o caipira é transitório, sem ter terra,
sempre fronteiriço, híbrido, entre o urbano e o rural. As pessoas que optam
pelo caipira hoje buscam manter a tradição, o discurso original, da
simplicidade voluntária. Criticam a opção declaradamente comercial do
sertanejo.
FOLHA - A defesa da tradição é também nacionalista, em oposição ao
"americanismo" do sertanejo?
SOUSA - Sem dúvida. Eles defendem a própria cultura reclamando da
incorporação do que vem de fora. O sertanejo se diluiu tanto nessas
influências que muitos artistas acabaram por voltar a essas origens, a fim
de resgatar suas referências, por mais que voltem a desfocá-las logo em
seguida.
FOLHA - O músico sertanejo, então, não rejeita o caipira como o caipira o
rejeita?
SOUSA - É uma relação de respeito e ancestralidade.
FOLHA - E o caipira permite a evolução do seu estilo ou fica preso à pureza
de origem?
SOUSA - Permite, sim, de forma bem mais lenta, mantendo o discurso original
e sem desvirtuar essa origem.
MODA INVIOLADA - UMA HISTÓRIA DA MÚSICA CAIPIRA
Autor: Walter de Sousa
Editora: Quiron (tel. 0/xx/11/6953-
Quanto: R$ 80 (250 págs.)
Caipira é tema de estudo central
"Os Parceiros do Rio Bonito -Estudo sobre o Caipira Paulista e a
Transformação dos Seus Meios de Vida", do crítico e professor aposentado de
teoria literária da USP Antonio Candido (ed. 34/Duas Cidades) é um dos mais
importantes estudos sobre o modo de vida caipira e seu declínio.
Originalmente uma tese de doutorado em sociologia defendida em 1954 na
Universidade de São Paulo, "Os Parceiros do Rio Bonito" recorre à crítica de
viés marxista, focalizando a humanidade do caipira, afeito à natureza, e sua
alienação no capitalismo.
Folha de S.Paulo, 30 jul. 2006.
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