A MINHA PRECE ©
Minha alma, Senhor, é como uma noite escura:
Aí soam os tambores e os violinos: os cânticos da beira!
Como os cantos do amor serenos das ceifeiras
Que cantam ao luar, à noite, pelas eiras...
A nédia abana: a alma satisfeita,
E cai sombria, vaga, e miúda, e desfeita...
É como a folha morta, em lagos sonolentos,
As minhas ilusões vão-se nos desalentos!
Senhor - há um poder imenso nas coisas e na tristeza
Senhor, assim conheço o que é a natureza:
É tudo o que me cerca - é o azul, e o escuro:
É o coqueiro esguio, a planta, o pau duro,
A folha, o tronco, a flor, os ramos desfeitos,
É a floresta espessa esguedelhada aos ventos.
Não entra o vício aqui: os prazeres são dissolutos
Não há lendas do mal, nem os choros dos lutos.
Aqui Senhor vejo passar serenos os meus dias
Às vezes curvados como às longas ventanias.
O meu peito repleto: através das florestas,
À calma do meio-dia ... dormindo as sestas,
Tranquilo nessa eira: entre as ervas nas leivas,
Orando e meditando entre os ramos e as seivas;
Outra vez sob o Sol - a sua eterna crença -
E frutos ressurgem na natureza imensa,
E, aos olhares do luar, descanso entre os felizes,
Nas profundidades do meu ser: no meio das raízes!....
Adorar ao Senhor assim ... oh devo saber bem
É sentir dilatar na Natureza mãe!
Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, erva ou alfombra,
A rosa que perfuma, a árvore que dá sombra,
Estremecer, na encosta, as nocturnas geadas,
E recortar o azul das noites consteladas!...
Senhor pelo claro azul nessas noites serenas,
O lavrador trigueiro entoa as suas cantilenas,
Tão tristes como a lua e o espinho dos martírios,
E através do azul parecem cair os lírios...
Quando a brisa baloiça as folhas inquietas.
Aqui: noivam os passarinhos ... abrem as violetas,
E a natureza tem como um sabor de beijos,
Que me obriga a soluçar nessa alma de desejos.....
A minha alma pastoreia Senhor, nessas brisas mensageiras,
À doçura da lua, a flor das laranjeiras,
O lírio, o crisântemo, os jasmins vacilantes,
Que foram já, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje, à branca luz dos mirtos siderais,
Conversam sobre o amor e os gozos ideais,
Do tempo ... que a falar corriam breve as horas,
Que seus olhos leais tinham a cor de amoras,
E debaixo do céu teciam longas danças,
Ao pé da amante meiga e de compridas tranças
Acho num lago sonolento - a flor do nenúfar
Onde o meu coração se abre para chorar!
O lírio um seio bom, - e as violetas curvadas,
São os olhos talvez das doces bem-amadas...
Feliz o lavrador que vive entre os arados:
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol, à chuva: ...os verdadeiros,
E quando à noite finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscá-lo nos atalhos,
Cujo olhar, como a lua, é tranquilo e consola
E descanta, chorando à noite na viola!
E os meus gemidos andam Senhor: trigueiros e contentes,
Entre as ondas e o Céu, nostálgicos, clementes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos céus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarcéus,
Ombro a ombro o abismo - abismo sempre aos pés -
Que dormem à poesia, à lua das marés,
E morrem uma noite, nesse ser: aos seus embalos,
Deixando uns olhos bons e meigos a chorá-los!
Senhor isenta-me desse suspiro profano:
Pois esse não trará um astro bom nos céus
Nem uns olhos leais que chorarão pelos meus.
E que inda a fronte mal me obscureça a mágoa,
Como espelhos do amor já sejam rasos da água!
Sozinho passarei Senhor, e não irei jamais,
Pelas murtas, com delitos, nas tardes outonais.
De Inverno, não terei os consolos do lar,
Nem do estio a doçura imensa do luar,
Meus amigos não irão jamais colher os ninhos,
Ninguém virá à tarde, esperar-me nos caminhos!
Nessa hora Senhor: ampara-me no Seu Reino!
© Berardo Pinto Pereira
27 de Maio de 2001