A SOMBRA DA SAUDADE ©
É PRIMAVERA!
NÃO SINTO O CHEIRO DAS FLORES,
NEM OUÇO O CHILREAR DOS PÁSSAROS.
PASSA-SE ALGO......
No caderno escrevo,
Escrevo poemas.....
Sempre deixo esse caderno aberto:
A página obriga-me o verso a avançar
Até o fim da linha,
Passando a outro verso,
Até a estrofe completar.
O poema, nasce do vazio.
Muitas vezes não tem um princípio;
Nem outra razão:
A não ser de reviver uma imagem
Que se acha metida no meio!
Entre a memória e o caderno,
Deixo na página uma sombra que tento
Apagar com o poema,
Como se ele a pudesse absorver,
E transformar a saudade em verso,
E estendê-la até ao fim da estrofe!
Um poema precisa de viver.
E, para isso, não pode
Estar a sombra de qualquer coisa,
Mesmo que essa sombra seja a tua imagem
E a tua saudade.
Para apagar uma delas: imagem ou saudade
É fechar o caderno.
Ainda assim: o cadastro do sentimento, nele se acha!
Entretanto, o poema completo
Esquecendo-me por instantes do seu principio,
Tudo volta ao mesmo:
E tu estás comigo,
A tua imagem desce da memoria para o caderno,
Alastrando as saudades pela linhas até o fim do poema.
E poema vive por essa única razão:
Fixar a tua sombra e saudade.
© Berardo Pinto Pereira
14 de Abril de 2002.