DIA DE GOA - 2002
Graças a uma oportuna iniciativa de René Barreto em 1999, as celebrações anuais de um Dia de Goa tornaram-se realidade a partir de 2000, onde quer que haja goeses ou descendentes de goeses, seja nas cidades, vilas e aldeias de Goa seja na diáspora. E eu suponho que todos se recordarão do motivo da escolha de 20 de Agosto como a data ideal para tais celebrações: honrar o dia em que a nossa língua "atingiu a maioridade" (se assim me posso pronunciar) ao ser incluida no 8º anexo da constituição indiana e ser desta maneira reconhecida como uma das línguas nacionais do país.
As celebrações de 2001 tiveram cmo lema a Solidariedade e o dia 19 de Agosto daquele ano, sendo domingo, viu o DIA DE GOA ser celebrado pela primeira vez em Lisboa.
Neste ano de 2002 dediquemos as celebrações de um modo especial à nossa avôi-bhas, à nossa língua-mãe Concani. É verdade que muitos de nós na diáspora, principalmente os das segunda e terceira gerações - nascidos longe do pequeno estado de Goa e muitos deles com dificuldades em manterem contacto com as suas raízes -, não sabem escrever e às vezes mesmo falar essa língua e, daqueles que nela escrevem, a maior parte fá-lo no alfabeto romano, enquanto infelizmente este alfabeto está a ser proscrito em Goa, afectando adversamente, por exemplo, os tiatrs que têm vindo a ser tradicionalmente escritos em "concani romano" por tiatristas cristãos. Mas, independentemente de conhecermos ou não a língua do nosso estado, é incontestável que a amchi bhas (nossa língua) constitui a base da nossa "goanidade" e, nem que seja apenas por esta razão, temos o dever de a honrar.
E por que digo eu que o Dia de Goa - 2002 deve dar relevância especial à nossa língua? Pelo menos por três razões muito fortes: em 4 de Fevereiro deste ano passou o 15º aniversário do "Language Act" pelo qual o concani foi aprovado como língua oficial de Goa pela Vidhan Sabha (Assembleia Legislativa) de Goa; hoje, 30 de Maio, marca o 15º aniversário da criação do Estado de Goa, o que não teria sido possível se o território não tivesse, antes, a sua própria língua oficial; e no dia 20 de Agosto teremos o 10º aniversário da aprovação unânime, pelas duas câmaras do Parlamento indiano, da lei que incluiu o concani no 8º Anexo da Constituição.
Em Portugal existe ainda um outro motivo: foi em Maio de 1987 que foi informalmente instituida uma associação de goeses, damanenses, diuenses, dadraenses e naggar-avelienses com a designação de "Casa de Goa", posteriormente legalizada por escritura notarial de 15 de Julho do mesmo ano. É este assim o ano do seu 15º aniversário. O Dia de Goa - 2002 será por isso celebrado em Portugal, em Agosto deste ano, como o "Dia de Goa, Damão e Diu", estando a comissão organizadora ocupada com o planeamento das actividades plurifacetadas ao longo do período de 17 a 20 de Agosto (Nota: Como no contexto do "Estado da Índia" [Português] Dadrá e Nagar Aveli faziam parte do distrito de Damão, para os que residem em Portugal o termo "Damão" inclui aqueles dois enclaves que foram anexados pela Índia e transformados em um "Union Territory" aos 11 de Agosto de 1961).
Voltando à língua. Muitos goeses, especialmente os cristãos, e de um modo particular os da diáspora, ressentem-se do facto de, quando o concani ganhou o estatuto de língua nacional da Índia, ter sido aprovado que apenas o devanagárico seria aceite como seu alfabeto verdadeiro e legal. Há um ano advoguei que, sendo a nossa língua materna a única que é escrita em cinco, seis ou mais alfabetos (o que constitui uma das suas facetas mais ricas), deverámos lutar pelo reconhecimento oficial desta riqueza. Lembro-me de ter sido então vivamente contestado em alguns quadrantes. Recebi por isso recentemente com satisfação a notícia de que o Governo do Karnátaka decretara que, naquele estado, o alfabeto oficial do concani seria o canarês e nenhum outro. Por que motivo, então, não poderemos ter o concani romano legalizado em Goa? Enfrentemos afoita e honestamente os factos: no Karnátaka (Mangalore, Karwar, etc.) o concani é escrito em canarês, em tulu numa outra região do mesmo estado, em malaiálam em Cochim, em guzerate e em urdu no Guzerate; assim, por que não em devanagárico e romano em Goa?
Sintamos orgulho em sermos não só goeses mas também concanis; e honremos a nossa bhas, qualquer que seja o alfabeto em que a escrevemos. E - por favor não se esqueçam - façamos todos um esforço para fazer a aprendizagem (os que não sabem) ou aperfeiçoar os conhecimentos (os que sabem) da língua concani. Vaman Ragunath Shennoy Varde Valaulikar, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário de Shennoy Goembab, que dedicou os últimos vinte anos da sua vida a pesquisar a língua, literatura e história dos concanis, conseguiu provar que o concani não é um dialecto do marata mas uma língua independente (e, na realidade, com uma existência muito mais antiga do que o marata). Estimemos pois a nossa língua como um dos nossos mais preciosos tesouros.
30 de Maio de 2002
Jorge de Abreu Noronha